quarta-feira, 30 de novembro de 2011

The Heads - 1998 - The Time Is Now




Eu odeio rock and roll. Toda a pose, suor, brilho falso, pretensão. O que há numa guitarra que faz todo mundo que sabe tocar se sentir mais talentoso que o John Holmes? Má alimentação, cheetos bola todos os dias. Lavar a porra da calça uma vez por mês. Óculos escuros wayfarer como se fosse uma puta novidade. Negação, medo do amanhã, dores crônicas em pelo menos uma parte do corpo. E a música. A música? A música! É só um microcosmo da cultura. A casa cheira a cigarro, um loop toca pra sempre sem que alguém perceba que há algo pra se perceber. O gosto de cerveja de ontem é combatido com cerveja de hoje. O sol bate, maltrata, mas não esquenta. Ecos. Mais e mais de novo. Virar, ver irrelevância em tudo, se tornar irrelevante, relevar isso também. Eu amo rock and roll.

Meu cachorro, Juca, não entendeu que minha ideia era mostrar que o rock and roll é uma bosta e glorioso ao mesmo tempo. Se uma bosta é o resto, glorioso é The Heads. Provenientes de Bristol, esses imbecis tocam o tipo mais delicioso de rock psicodélico. O disco em tela, The Time Is Now, é uma coletânea de singles e obscuridades. As 7 músicas são impactantes, música não aceitando ser trilha sonora pra lavar a geladeira. Riffs longos, lentos, estudados e irracionais, como desenhos numa manhã neblinada. Não é pesado, ao mesmo tempo é menos leve que Ana Maria Braga vestida de noiva. Ou que uma morte na família. O Heads personifica meu aspecto favorito no rock and roll, e talvez na arte num geral: eles fazem o que fazem única e exclusivamente porque podem fazer. E você não pode.

Streetlight Manifesto - 2003 - Everything Goes Numb



Cada dia que passa nos afasta mais dos nossos planos. A nostalgia da infância passa por não termos expectativa, quando não há esperança não há decepção. Uma formiga consegue carregar várias vezes o seu peso, mas ainda assim é facilmente esmagada. Que chance nós temos? Estudar, crescer, trabalhar, amadurecer. E se o que queríamos fica em segundo plano? Existe totalmente a possibilidade de ser feliz naquilo que fazemos, mas o que acontece quando o cara acorda um dia, encara o abismo e percebe que ele tá pouco se fudendo pra encarar de volta. Até o sucesso pode ser escrito com aspas, quando é bom o suficiente? E se eu nunca conseguir ganhar a vida do jeito que eu quero?

Pensamentos suicidas cercam até os momentos mais felizes. Está lá. Meu cachorro, Juca, está me olhando torto pelo tom soturno peculiar do meu texto. Acho que ele está, na verdade, puto porque eu esqueci a salsicha no forno e aquela porra tá chamuscando. Eu acho que eu sempre achei essa mistura de esperança com desesperança, tão humana, meio charmosa. Em Everything Goes Numb, o Streetlight Manifesto trata dela brilhantemente. É um disco de ska, perfeito pra festinha, mas ainda assim reside nele um lado negro. E não, infelizmente não falo de funk, o que seria sensacional. As letras do Tomas Kalnoky, que tinha tipo 7 anos quando gravou o disco, são primárias, mas a intenção é essa mesmo. Se a possibilidade de nunca acordamos no nosso sonho existe, ei, por que não dançar com ela?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Townes Van Zandt - 1972 - High, Low & In Between


A necessidade sobrenatural humana pela próxima novidade foi o que me motivou à criação desse blog. Em tempos aonde Steve Jobs é Jesus Cristo reencarnado, tudo passa mais rápido do que parece correto. Até criar um blog é arcaico. Vivemos num mundo aonde Rafinha Bastos tem qualquer influência sobre alguém, 2012 não pode chegar cedo o suficiente. Jornalista ama babar em fazer jornalismo 24 horas por dia, mas por quê? Por que basear sua vida em notícias imediatamente ultrapassadas? Algumas pessoas sentem orgulho em ser fãs de Tonico e Tinoco, eu já acho um bom apelido pras minhas bolas. Então pare. Respire. Jogue Super Mario RPG de Super Nintendo. Museie o céu. Odeie o cabeludo hipster tosco que sentou ao seu lado. Tente conhecer o que passa desapercebido. Veja menos palestras, ouça mais discos do Townes Van Zandt.


Lançado em 1972, High, Low and In Between não é de forma alguma representativo da discografia do Van Zandt. Seu trabalho mais folk, mistura tristeza sóbria com palhaçada franca de uma maneira indolor. Townes tinha uma voz brilhante, um ouvido impecável pra arranjos, e era um baita dum compostior. Embora sua obra gire, num geral, mais em torno do country, eu gosto mais de suas incursões por outros estilos. Rola letra sobre correr peladão usando apenas um chapéu de cowboy, o que, no final do dia, foi tudo que precisou pra mim.