terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Silver Jews - 1998 - American Water




Uma das coisas lindas na música é o culto a personalidade, aonde nossas preferências são tão subjetivas quanto a música em si. A tendência natural é agrupar, por isso há mais estilos do que propriamente individualidade. Não estou reclamando, isso não é um choro por mais música autoral, só que a personalidade dos músicos acaba se encaixando em gênero quase tanto quanto suas obras. A ampla maioria de nós é profundamente desinteressante, mas a humanidade em comum é das coisas mais inspiradoras. Sempre há, também, os idiotas que não chamam a atenção por nada além de uma espécie de prepotência com que tratam sua música. Você pode tentar soar arrogante, Deus, você pode até ser arrogante, mas achar que você é melhor do que os outros que fazem a mesma coisa? Não sendo melhor, você gera antipatia generalizada. Mas sendo? Você provoca uma inominável mistura de ódio com admiração.

David Berman começa o American Water cantando “In 1984 I was hospitalized for approaching perfection” da forma mais natural possível, com uma guitarra limpa repetindo os acordes mais simples do mundo. Ele nunca acelera, sua voz soa preguiçosa na música inteira, a bateria é leve, as guitarras são discretas, o baixo só acompanha. É como se ele não estivesse nem tentando. No final dos 4 minutos, “Random Rules” é uma das melhores músicas já escritas. Soa óbvia o tempo todo, mas as melhores coisas soam justamente assim. Está na nossa cara, quase como um deboche por não termos pensado antes. Seu sarcasmo é perceptível em cada sílaba recitada, raramente cantada, durante o disco. Nada parece ter qualquer esforço. Berman deixa a melodia mais bonita, “The Wild Kindness”, pro final, como conclusão de um universo inteiro dentro de pouco menos de 50 minutos, uma lembrança do porquê chegamos ali. Infelizmente, eu nunca o conheci e provavelmente nunca irei, então não sei se ele é assim cuzão. Prefiro acreditar que sim. Você pode tentar odiá-lo, mas, no final do dia, ele faz isso melhor do que você faria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário