Eu nunca tinha ouvido falar de Marcelo Moreira, preferia morrer sem tê-lo feito. Mas certas coisas são escritas como iscas irresistíveis, e aqui estamos nós. Um post no blog do Estadão contém esse título:
Música eletrônica é barulho, não é música
Vamos lá comigo?
Música eletrônica não passa de barulho, e DJ pode ser tudo, menos músico.
Nosso querido já começa bem: repetindo o título imbecil, gramática questionável e algo que vai ser repetido ad nauseam pelo texto todo. Estou levemente excitado já de início!
Aparentemente não há muito o que discutir sobre as duas máximas, mas há gente que insiste em brigar com os fatos, em espancar e torcer a realidade.
Fatos? Que fatos? Que música eletrônica não passa de barulho? Aphex Twin, Boards of Canada, Venetian Snares, The Field, Nicolas Jaar... Tudo barulho? Em algum ponto ele tem alguma razão, música é barulho essencialmente, mas, vamos e venhamos, estamos em 2012 e um jornalista musical não conhece nada disso. Acho que o apocalípse envolve ignorância sendo tomada como ciência.
Os recursos eletrônicos sempre foram levados em consideração a partir do momento em que se inventou o abominável sintetizador, no finalzinho dos anos 60, trambolho barulhento que encantou gente decente como George Harrison (Beatles) e Pete Townshend (The Who).
Uma rápida pesquisa no Google aponta que não, o sintetizador não foi inventado no "finalzinho dos anos 60". "Trambolho barulhento" não devia me surpreender, não tem a menor chance do Marcelão conhecer M83, Pet Shop Boys, Ladytron, Brian Eno. Note que não estou citando coisa ultra-desconhecida, isso é o básico que todo mundo que escreve sobre música devia ouvir. Mas, porra, Pet Shop Boys é gayzão.
Quando usado de forma inteligente e criativa, sem abuso, o sintetizador foi bastante útil, como nas trilhas sonoras compostas por Harrison e nas obras-primas do Who “Who’s Next” e “Quadrophenia”.
Acho curioso a utilização da palavra "inteligente" nesse texto, é meio como gato latindo. E a carreira solo do George Harrison é uma abominação.
Infelizmente, por outro lado, foi responsável por algumas das maiores porcarias já feitas dentro do rock.
Tipo a carreira solo do George Harrison?
Por que essa discussão surgiu?
Porque você é um imbecil.
Por dois fatos isolados. Um deles foi uma antiga entrevista de Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, uma extinta revista de música pop a respeito do Benzina, seu projeto paralelo dos anos 90 com forte influência da música eletrônica.
Eu gosto do Scandurra, mas comparar negativamente qualquer coisa com Ira! é bastante mongol.
Um amigo músico, ex-roqueiro e maluco por novas tecnologias, mas com gosto musical turvado pelas próprias porcarias eletrônicas que anda ouvindo, fez referência em uma festa ao fato de Scandurra ter feito elogios às possibilidades criativas a respeito da música cibernética e artificial, feita por máquinas.
Pronto! Finalmente ele falou o que todos estamos pensando, música eletrônica é artifical, feita por máquinas! Você já viu Tron? As máquinas são seres pensantes totalmente não dominadas por humanos, criadas com nenhum outro propósito além de destruir o meu rock and roll! Esse argumento, arJumento na verdade, é uma falácia tão idiotesca que pode ser desmontada no simples fato de tudo usado pra fazer música ser uma porra de uma máquina. A menos que você seja o Paul Stanley, aí sua guitarra é seu pau.
Para azar de meu amigo, ficou sozinho na defesa da “música eletrônica” na roda de amigos na área do churrasco. Foi massacrado por gente inteligente e que tem discernimento e que não se contenta com barulhos artificiais de computadores e sintetizadores.
Eu vejo o diálogo:
Amigo do Marcelo: Cara, música eletrônica não é só aquilo que você vê em vídeo de balada, há muito mais do...
Marcelo: Tem guitarras? Tem baixo? Tem bateria?
A. M.: Bom, não, mas é meio que o ponto, música é música, pode ser feita de qualquer maneira que...
Cabeludo: Sério, aquilo não é música, e quem passa anos estudando?
A.M.: A maioria dos produtores estudaram bastante tempo música!
M: Tem guitarras? Tem baixo? Tem bateria?
A.M.: Você já perguntou isso.
Cabeludo 2: Mas e escalas? Dj sabe o que é escala?
A.M.: Nem todo mundo que faz música eletrônica é DJ!
M: Tem guitarras? Tem baixo? Tem bateria?
A.M: Desisto.
Marcelo e os cabeludos: A INTELIGÊNCIA SEMPRE VENCE! [botam "Born to be Wild" pra tocar, coçam o cu e cheiram o dedo]
Quão fantástico teria sido se ele tivesse escrito "Dissernimento"?
O outro fato que suscitou esse texto foi uma acidental passagem por um fórum roqueiro de discussões na internet, vinculado a uma revista, em que alguém foi igualmente massacrado por elogiar o trabalho da dupla de DJs MixHell, formada por Iggor Cavalera, ex-baterista do Sepultura e atualmente no Cavalera Conspiracy, e sua esposa, a artista plástica Laima Layton.
Óbvio que um troço chamado MIXHELL vai ser uma merda, seu porra retardado. Um fórum roqueiro periga ser o lugar mais bosta do mundo.
Assim como qualquer outra trilha de danceteria, o trabalho do MixHell é forrado de barulhinhos eletrônicos irritantes, tem o som artificial de baixo estrondoso e ensurdecedor e sua “trilha melódica” é repetitiva e anódina, como convém às pista de dança. Ou seja, pode ser tudo, menos música.
Defina música. E não lhe ocorreu que, porra, o Cavalera não faz algo decente desde... Bem, sempre. Enfim, não ocorreu que ele possa ser ruim em música eletrônica sem que o resto do mundo o seja? Dez reais dizem que você teve que procurar "anódina" no Google.
Respeito demais o trabalho instrumental de Cavalera. Com certeza ainda é um dos mais importantes bateristas de heavy metal, criou um estilo rico e técnico, com peso e velocidade que viraram referência no estilo. A migração para o barulho eletrônico chocou os puristas.
Talvez porque, porra, não faz nenhum sentido ele se meter a fazer algo que não saiba?
Se a música eletrônica “amplia os horizontes criativos e as possibilidades musicais”, como acredita Edgard Scandurra, então não é o caso do próprio Benzina e muito menos do MixHell, cujos trabalhos, vamos dizer assim, estão bem abaixo das qualidades musicais que o guitarrista do Ira! e Cavalera sempre apresentaram em suas carreiras.
Aqui você me perdeu, caro Marcelo. Você está definindo TODA UMA FORMA DE ENCARAR A MÚSICA, nem um estilo, negativamente porque os trabalhos do Scandurra e do Cavalera não são bons na área? Que tipo de lógica é essa? Você procurou conhecer Autechre, Trentemøller, Gas, Four Tet, μ-Ziq.
Boa parte dos músicos consagrados e mesmo os de apoio costumam ser diplomáticos ao falar do uso de elementos eletrônicos em seus trabalhos, mas simplesmente ignoram o que conhecemos por música eletrônica, aquele barulho artificial e insuportável das pistas de dança.
MÚSICA ELETRÔNICA NÃO É SÓ ISSO. Porra, qualquer Zé estereotipar assim, foda-se. Mas um jornalista musical? Isso devia dar cadeia.
Alguns aceitam que produtores criem arranjos com base em barulhos de computador, outros até brincam com os mesmos barulhinhos que os DJs e os incluem de forma discreta em seus trabalhos. Mas são poucos os artistas sérios que realmente fazem uso desses recursos de forma explícita e escancarada.
Começo a suspeitar que você bebeu água de parto em excesso. Quem faz música eletrônica É produtor, e não necessariamente DJ. Produtores que aprenderam a mexer no estúdio, revirar cada instrumento por um timbre diferente, entendem de volume, dinâmica, etc. E entendem de música muito mais do que você ou o Iggor Cavalera.
Dois gigantes do rock cometeram trabalhos péssimos nos últimos 20 anos, seduzidos pela suposta “modernidade”. Eric Clapton escorregou feio com “Pilgrim”, de 1998, CD no qual suas guitarras foram soterradas por arranjos eletrônicos e barulhos artificiais.
Eric Clapton não lança algo de bom desde os tempos da Dercy usando biquini. Não tem nenhuma relação com música eletrônica.
Jeff Beck, outro gênio da guitarra, caiu na armadilha e gravou os insuportáveis “Jeff”, de 2001, e “You Had It Coming”, de 2003, sendo que já flertava com o estilo em 1999 no álbum “Who Else!” Beck gostou do resultado de sua ousadia, mas os fãs não. O jeito foi voltar ao rock, ao blues e ao jazz para gravar “Emotion & Commotion” neste ano.
Jeff é um belíssimo disco pra um artista da idade do Jeff Beck. O Emotion & Commotion é uma merda e não acrescenta nada a porra nenhuma.
É possível ficar dias e dias colhendo exemplos para torpedear o barulho eletrônico.
Acredite em mim, eu posso citar muito mais exemplos de música eletrônica boa do que você o contrário. Porque eu me informo antes de falar disso.
Quem gosta deste tipo de música se contenta com muito pouco.
Quem se contenta com muito pouco é a mulher que dá pra você, e eu esperei todo esse texto de merda pra fazer essa piada.
Isso não é música, e DJ não é músico, é um tocador de CD. No máximo, animador de festa. DJs que acham que são artistas não podem ser levados a sério. São o que são, o que já é demais.
Muitos produtores musicais estão na vanguarda da música, o que então é um "músico"? O que é um "artista"? A merda do Jet, que recicla todos os clichês do rock? O Metallica, que não lança nada que preste faz mais de 20 anos? Isso é um arista original, enquanto produtores, que constantemente pensam além do que podia ser feito, não são? Pra cada Jesus and Mary Chain existe 50 Foo Fighters, e pra cada Foo Fighters existem 50 bandas cover disso. O rock é assim original. Já alguém que busca fazer algo completamente novo, usando da tecnologia criada por seres humanos e não por robôs, é chamado de animador de festa?
Você, Marcelo Moreira, é um idiota completo.
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