Eu não lembro o ano, mas foi em uma cidade serrana do Rio do Janeiro. Meus pais estavam visitando a casa de alguns amigos, nenhum detalhe ficou marcado na minha cabeça. Em algum determinado ponto, eu fiquei triste com alguma coisa e andei pra tentar esquecer. Noite escura, faminta, nenhuma estrela até aonde a vista alcançava. Sentei na grama e me senti ofegante e percebi que saía fumaça da minha boca. Estava frio. Sendo do Rio de Janeiro, tropical província onde todos os dias são lamentavelmente quentes, você não conhece o frio. A lua nunca pareceu tão solitária quanto ali, esquecida enquanto todos se aqueciam em qualquer lugar distante dela. Senti-me como um lobo perdido e ainda assim tão conectado com tudo ao meu redor.
A exploração de texturas como sinfonia feita pelo sueco Alex Willner sob o nome The Field parte do princípio de conseguirmos correlacionar com algo que não conhecemos. É a prova da existência de algum Deus, quando sabemos de merda que simplesmente não sabemos. Nenhuma igreja ou culto ou ciência capturou esse momento. É elusivo em sua natureza, ignorado ao ponto que virou uma suposição. Eu encontrei a garota dos meus sonhos naquele dia frio no píer, com meu pouco casaco e o vento em seu rosto. Ela andou até mim, com seu cachecol e câmera no pescoço, com sua timidez charmosa. Tão único momento, tão conhecido por milhões de pessoas. Toda nossa literatura é carregada com histórias como essa, mas aquele instante pintado como um quadro em seu tempo pareceu uma invenção de uma nova linguagem. Tudo já foi feito só pra ser feito de novo, começando do zero. Pinturas de caverna na nossa genética, desesperos e glórias, sucesso e fracasso, a singularidade de cada história, cada indivíduo. Daqui nós só podemos ir para o Sublime.

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