Dias de fúria, tempos estúpidos. Queremos ocupar Wall Street só pra enfiar no cu de quem nos abusa, mas quem nos abusa? Em cada ser humano existe um revolucionário, ele está ali, à espreita, parado na esquina, tomando uma refriscola, esperando o momento em que inevitavelmente cedemos à nossa própria idiotice. Eternamente condescendentes, nos afogamos no brilho de fazer algo. O que é algo? Por que fazer algo? Não existe revolução no Brasil, não está no nosso sangue. A ampla maioria dos apoiadores brasileiros do OWS não faz ideia do que seja Wall Street fisicamente. É uma rua? Um prédio? Um bairro? Uma espaçonave? Um cotonete? E isso virou desculpa pro pessoal querer ocupar tudo, mas por que? Corporações não são pessoas porque elas não podem te mandar chupar uma piroca, mas eu posso. Eu não levanto punho cerrado pra nada, minha ignorância ainda é uma porra duma benção. Ninguém abraçou melhor isso em 2011 do que o Trevor Powers, único membro do Youth Lagoon. Seu Year of Hibernation soa como uma atualização da discografia do Daniel Johnston, é tão perfeitamente retirado do tempo quanto esse que o inspira. Mas, ao contrário da esquizofrenia de Johnston, Powers é envolvido por uma melancolia, uma nostalgia pelo sonho da noite passada. Em “The Hunt”, que encerra o álbum, ele canta “I got a sickness in my head that won't go away”, e tudo aqui soa exatamente como isso. Etéreo, perdido, neblinado, o debut do YL é o disco mais ignorante de 2011. Somos todos melhores por isso.
Nada mais humano do que um honesto egocentrismo. Aubrey Drake Graham fala mais “eu” do que qualquer outra palavra, de longe. O segredo da beleza disso está no 'honesto' que vem antes do 'egocentrismo'. Drake realmente acha que ele é foda, mas isso não vem superficialmente, nada disso pode vir superficialmente. A pessoa mais apaixonada por si mesma é aquela mais quebrada, aquele que não supera nada além dos próprios terrores noturnos, mas julga ter vencido a porra do mundo todo. “I know that you gonna hear cause I'm the man, yeah I said it, bitch I'm the man, don't you forget it” é a frase mais simbólica em “Shot for Me”, que ao mesmo tempo é uma ode a si mesmo e uma lamentação pela perda de alguém. Se ninguém está completo sozinho, por que não abraçar essa dualidade? Só que Drake alia isso com uma produção excepcional, o instrumental do disco todo é rebuscado e cheio de nuances. Pra falar de si mesmo você precisa de algo que leve alguém a ouvir sua voz, e foi o que Drake conseguiu aqui. Take Care é o My Beautiful Dark Twisted Fantasy de 2011, só que menos expansivo e, embora seja também menos genial, é um lembrete de que não existe nada mais irresistível do que honestidade.
Por algum motivo obscuro, muita gente associa música eletrônica a algo artificial. Claro, existe música eletrônica genérica, o antigo e famoso esteriótipo do “bate-estaca” com aquele sintetizadorzinho bem academia, só que não mais do que rock and roll merda incapaz de fazer algo além de repetir tudo que veio antes. E os fãs de rock and roll amam celebrar sua própria inteligência em relação a quem gosta de música eletrônica, em todo produtor de jaqueta de couro há um complexo peniano ironicamente imenso esperando louco pra sair. Demorei pra ouvir os Eps do James Blake ano passado por ele ter o mesmo nome daquele tenista, aí pensei que o tenista teria tentado algo meio Jack Johnson, só que ao invés de surfar e fumar maconha seria jogar tênis e ser saudável. Finalmente ouvi, eram bons Eps, mas nada que preparasse pro álbum que veio esse ano. Abrindo mão do dubstep como bandeira e partindo pra algo focado em composição, Blake lançou um todos tantos discos desse ano que são impossíveis de categorizar. É um folk feito com sintetizadores, ou uma trilha de cabaré deslocada da sua época, ajudada pela tecnologia. O resultado é um puta dum som alienígena, alheio a qualquer categorização, independente de qualquer noção de independência.
O problema do Death Cab for Cutie e do Bright Eyes sempre foi a completa ausência de sutileza. As composições não tem qualquer espaço pra respirar, tanto o Ben Gibbard quanto o Conor Oberst gritam para a audiência o tempo todo o quanto eles sofrem. Não há espaço pra interpretação, não há nenhuma sensação bucólica, nenhum torpor depressivo, porra nenhuma. Não preciso nem destacar a idiotice disso. Você pode frasear da forma mais poética imaginável, mas nunca sendo direto. A música nunca segue as palavras, as palavras só meramente criam mais força quando o ambiente criado pelo som assim permite. A parceria entre um magrão que se autointitula King Creosote e o produtor Jon Hopkins, ambos britânicos, parece ter acertado um pouco melhor a mão nisso. As imagens pintadas pelo vocal frágil do Creosote (Kenny Anderson o nome real, o que me fez perceber a real importância de um pseudônimo, portanto só assinarei agora como Nelson Jeremy Prates Frota Jr.) são vagas e incolores, manchadas pelo tempo, meio esquecidas ao ponto dos fatos serem secundários ao que foi sentido. Os toques de música ambiente na produção reforçam essa melancolia espessa, como uma fotografia de uma casa perdida no meio do mato, só que essa casa não pode ser registrada por fotos. A distância do homem pra captar o que realmente está passando, e o tanto que se perde nessa leitura, é o som aqui registrado.
A vida é quieta, de muitas formas você não vai perceber que ela está lá se não prestar muita atenção. O balé do cotidiano parece movimentado, mas numa escala ampla é silencioso, os dias passam zumbizando sem que se note, o sol morre antes que percebamos que porra ele estava fazendo ali em primeiro lugar. Adam Wiltzie (Stars of the Lid) e Dustin O'Halloran (Dévics) fazem um tributo a isso, o belíssimo projeto A Winged Victory for the Sullen é uma conclusão lógica da tristeza eterna proposta pela banda principal do Wiltzie. Existe a possibilidade real e assustadora de não estarmos aqui por qualquer motivo, não precisamos ignorar a frivolidade da nossa própria existência. Nunca vamos provar o sublime, e se não existirem anjos tocando harpa? O que resta somos simplesmente nós, imperfeitos e desconstruídos, ruidosos em cada passo, tortos em cada traço, perdidos sem nem saber se houve uma direção em primeiro lugar. AWVFTS é um mundo dentro de si mesmo, aonde não existem dúvidas, lamentações, medos, nada. Nada mesmo.
“And all these thoughts in my head made the sane go astray”, e nesse momento o já brilhante XXX atinge outro nível. O disco do Danny Brown é um dos mais gloriosamente inconsistentes do ano, com o rapper tentando passear por todo o seu cérebro, só pra chegar no desesperador desabafo que é a última música, “30”. O disco varia do alegre e putanheiro pro claustrofóbico e desesperançoso, sempre perfeitamente colorido. “My dick so big left stretch marks on her jaw” divide espaço com “The thought of no success it got me chasing death doing all these drugs in hopes of OD’ing next”, e não existe uma divisão clara. Registra perfeitamente cada passo da droga no seu sistema, do êxtase ao horror, e não há uma lição de moral aqui. Não há celebração também. XXX é engraçado, trágico, empolgante, diferente e profundamente contemplativo, colocando o Danny Brown firmemente como um dos artistas mais interessantes da atualidade.
“Hellhole Ratrace”, do primeiro disco do Girls, Album (2009), é um tratado em drama. Drama só por ser drama, mas porra, por que não? E, embora o resto do debut seja sólido, o EP que sucedeu (Broken Hearts Club, de 2010) não me chamou muito a atenção. Então quando Father, Son, Holy Ghost foi anunciado, eu não criei muita expectativa. “Claro, mas cadê o novo do Judas Priest?” - enquanto embocava uma peça inteira de bacon, porque eu sou uma porra dum homem das cavernas. Ouvi “Honey Bunny” e não esbocei nenhuma reação, apenas voltei a fazer o que é minha especialidade: nada. Quando baixei o disco, terminando assim minha odisseia chata e relativamente previsível, botei a mesma música pra tocar. O estranho é que ela soava exatamente como toda banda de rock devia soar, mas óbvio que não é assim. Todo magrão aprende a tocar guitarra e já corre pra montar uma bandinha, o que é o próximo? Todo cara que tenha pau grande vai começar a fazer filme de putaria? Vai faltar buceta pelo tanto que gaúcho gosta de falar sobre tamanho de pau. “Alex” veio logo em seguida, e nesse ponto eu já estava conquistado. Tudo está no lugar certo, é o que o rock and roll seria sem o aspecto boçal que permeia a cultura. No final das 11 músicas, Father, Son, Holy Ghost impressiona. Melodias contagiantes, experimentações sem confundir palhaçada com meter o palhaço, timbres bonitos, tudo. É um resumo das décadas que vieram antes sem nunca cair no genérico, sem nunca parar de soar como algo novo.
O Destroyer existe desde 1995, desde lá o Daniel Bejar tem feito músicas selvagens, sempre pendendo pro imprevisível. Em 2011, no entanto, ele aceitou uma realidade: se entregar à farofa é sempre uma boa. É aparentemente impossível fazer qualquer análise do Kaputt sem citar Pet Shop Boys, Steely Dan ou Roxy Music, então já cito os três. Kaputt, no entanto, é mais do que uma gama de influências, é sobre aceitação. Bejar sabe disso, sua voz nunca soou tão confortável quanto no mais recente trabalho de sua banda. Por toda sua carreira, o canadense baseou em ampla escala suas composições em torno de arranjos intricados, guitarras pesadas, orquestrações, letras longas e cantadas com uma pressa quase maníaca. No álbum em tela, ele para pra olhar pra trás. Soando como um crooner cansado, um que não tem mais controle sobre as palavras que fogem de sua boca, ele recita letras sobre saudade, tristeza, cansaço e a malaise contemporânea de uma forma sedutora, perigosa, e deliciosamente cafona. Se os ternos roxos lindos, megahair, glitter, purpurina voando da caixa, e num geral aquele delírio tecnológico barato nunca pode voltar, o que nos resta é a lição que os anos 80 deixou. Pra mim, pelo menos. Ao aceitar a farofa, abraçá-la e fazê-la de musa também, Daniel Bejar fez o disco mais delicioso do ano.
Esses filhos da puta saíram do nada. Fazendo campanhas de divulgação estranhas, tocando com máscara, escondendo a identidade, escolhendo nomes oblíquos tanto para a banda quanto para as músicas e, finalmente, escolhendo gravar seu disco de estreia numa igreja abandonada, eles andaram por aquela linha tênue, quase invisível, entre o original e o clichê. Durante o debut deles, no entanto, tudo funciona. A ideia de gravar em igrejas já foi usada antes, mas nunca deu certo como aqui. A gravação soa ao mesmo tempo grandiosa e lo-fi, nítida e embaçada, pesada e leve. Os temas são ríspidos e ao mesmo tempo melódicos, acho que não há muito sobre a banda que não passe por uma tremenda dualidade. Mas, principalmente na música, incoerência é sinal de grandeza, e esses ingleses acertaram perfeitamente nisso. É possível traçar paralelos, principalmente com o também debut do Iceage, mas o WU LYF trafega por um universo único. Os vocais gritados do Ellery Roberts passam diversas emoções, e o sotaque estranho e carregadão dele faz com que tudo seja difícil de entender. Na verdade, é bem provável que na primeira audição você não entenda mais do que 2 palavras que ele fala no disco todo. Numa época onde todo artista é imbecilmente ansioso em quebrar a quarta parede, o WU LYF reserva o espaço bastante necessário pra interpretações e sonhos.
Não é impossível de separar as três mixtapes lançadas no ano pelo Abel Tesfaye, você pode ouvir cada uma delas como um disco separado. Mas por que você faria isso? Quando House of Balloons saiu, o Weeknd chamou muita atenção pela misoginia extrema do seu vocalista. Todas suas letras giravam em torno de sexo, mas não sendo nada sensual. As imagens pintadas por Tesfaye são as de desespero, do cara perturbador que cansou de tentar impressionar garotas e começa a se vingar delas. Ele implora pela atenção delas, mas ao mesmo tempo nunca perde o ar ameaçador. Não é carência, aqui soa como ódio mesmo. Quando Thursday saiu, Tesfaye já não estava tanto no consciente do público, e com esse lançamento saiu ainda mais. Mais fraturado e barulhento que o anterior, Thursday não tem nenhuma música nem perto de pegajosa, é um trabalho soturno, pesado, aonde a misoginia aparente do trabalho anterior se transforma de vez em algo muito mais monstruoso. O terceiro, Echoes of Silence, saiu quando a maioria das publicações já fechou sua lista de melhores do ano, o que de alguma forma serve de metáfora para a trajetória do The Weeknd no ano. O canadense Tesfaye fez uma carreira inteira em um ano, da ascensão à decadência, foi Elvis magro e gordo num período de meses. Seus álbuns não estão aqui só por isso, a qualidade de cada um deles é impressionante, formando um universo singular. Se estamos sempre preocupados com a “coisa nova”, é impossível de não se perguntar pra onde ele vai daqui. A certeza, no entanto, é que ele já foi pra mais cantos escuros do que qualquer outro artista em 2011.
Hurry Up, We're Dreaming tem o pior nome de disco da história, mas é o melhor disco do ano. Tudo nisso está exatamente aonde deveria estar. “Midnight City” não só é a melhor música de 2011, é também um dos melhores singles da história. Seu ritmo contagiante, o elegante arranjo, todos os instrumentos soam melhor do que em todas as outras bandas e, o principal, o vocal do Anthony Gonzalez. Por toda sua carreira, o M83 sempre teve possivelmente os melhores timbres de sua geração. As guitarras soam exatamente como guitarras devem soar, idem pros sintetizadores. Essa harmonia, em simbiose ao ponto de ser impossível de distinguir exatamente o que está sendo ouvido (de uma forma boa, não por parece ser gravado no banheiro como tanta banda de rock de garagem bunda), dava ao M83 um instrumental realmente excepcional. No seu novo trabalho, Gonzalez (único membro da banda) decidiu cantar de verdade. Ele não canta bem, mas num mundo aonde a Karin Dreijer não canta bem, cantar bem não é cantar bem.
O novo lançamento do M83, pra quem não sabe, é um disco duplo. Discos duplos tendem a ser uma merda, e isso não é reacionarismo bunda de análise musical, é apenas natural que álbuns duplos venham carregados de pretensão histriônica. E essa pretensão é verdade no HUWD, mas, por algum motivo, ela complementa o som da banda. Quando o desejo é fazer algo soar épico, você não consegue sem chegar perigosamente próximo do limite entre o ridículo. Você não cria uma música como “My Tears Are Becoming a Sea” sem abraçar esse excesso. O disco todo carrega esse lado explosivo, parece que em cada música é meramente questão de tempo até as coisas ficarem realmente barulhentas. Essa previsibilidade é confortável no seu efeito, soa familiar sem ser repetitivo. Eu sempre tive a impressão que uma música boa é aquela que está sempre a uma nota de soar divina, imaculada, etérea. Essa nota pode ou não existir, mas as melhores músicas são aquelas em que o artista chega perto ao ponto de você conseguir ver. Numa música chamada MINHAS LÁGRIMAS ESTÃO SE TORNANDO UM OCEANO, você meio que espera breguice. E breguice ali está! No seu estado mais puro, bruto, honesto. Quando as coisas explodem, Gonzalez chega bastante próximo dessa nota inexistente.
Em “Splendor”, já começando pelo nome, Gonzalez passa pelo território de auto-paródia. É similar em alguns sentidos àquelas baladas do UYI do Guns and Roses, só que aqui faz total sentido. Não importa nada, só o quão contagiante o coro é. O quão bonito o piano acaba soando. O como, no final de seus 5 minutos, qualquer defeito que possa ter aqui é esquecido. As faixas mais curtas, instrumentais servindo de interlúdio, todas soam no seu lugar. Prum disco duplo, é impressionante o quanto cada momento é aproveitado. HUWD soa como uma obra coesa, mas suas músicas podem, e devem, ser ouvidas individualmente. Nos primeiros acordes de “Midnight City” eu já tinha aceitado que eu ia amar o disco, mas Gonzalez conseguiu surpreender pelo quanto o resto de sua obra é espetacular. Cada vez mais música é criada pela facilidade, “verso-ponte-refrão” por cima de um riff é tido como obra-prima. É bom ver alguém se importando o suficiente pra ir além, buscando aquela nota hipotética. HUWD é o melhor disco da carreira do M83, é também um dos melhores trabalhos que eu já ouvi. A cidade é a porra da minha igreja, deus te abençoe Anthony Gonzalez.











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